Monday, July 2, 2007

Roliúde Nordestina: aí vem polêmica

Assim como a Hollywood americana começou – porque no lugar chovia muito pouco e isso era bom para filmar, aconteceu em Cabaceiras. Com índice pluviométrico mais baixo da Paraíba e lugares exóticos nos cariris, Cabaceiras se transformou em cenário perfeito para filmes que mostram o Nordeste. Daí foi um pulo para o pesquisador Wills Leal idealizar a Roliúde Nordestina. As produções São Jerônimo (RJ, 1999), de Júlio Bressane, Eu sou o Servo (PB, 1998), de Eliézer Rolim, O Auto da Compadecida (RJ, 2000), de Guel Arraes, Viva São João! (RJ, 2001), de Andrucha Waddington, Tempo de Ira (RJ,2003), de Gisella de Mello e Marcélia Cartaxo, Madame Satã (20022), de Karim Ainouz, Cinema, Aspirinas e Urubus (PE, 2005), de Marcelo Gomes, Canta Maria, (SP, 2006, Francisco Ramalho Jr), e Romance (2007, em produção), de Guel Arraes, foram todas filmadas em Cabaceiras. O projeto Roliúde Nordestina, que está sendo implantado com apoio do Banco do Nordeste, Ministério da Cultura e Saelpa prevê estabelecer Cabaceiras como locação definitiva de filmes. O letreiro, visto já na estrada, foi inaugurado no último dia 05 de maio medindo 80 metros de comprimento por cinco de altura, reproduzindo as palavras "Roliúde Nordestina", alusão à famosa placa "Hollywood" instalada nos morros de Los Angeles. Orçado em cerca de R$ 400 mil o projeto prevê uma sede, no extinto Cine Ideal, do município, a preservação, documentação e análise dos filmes feitos em Cabaceiras. "Queremos também criar condições reais para os que quiserem filmar na região e estudar as temáticas do cinema nordestino, do folclore e da história" diz Wills.No dia da festa ele anunciou que vem aí a Calçada da Fama, para deixar o lugar ainda mais pitoresco. Alguns cineastas acham que a idéia dá legitimidade ao cinema holywoodiano como se fosse o único cinema do mundo e questionam a idéia. Já foi feito até um filme sobre Cabaceiras (2007, 15 mins.), primeiro de Ana Bárbara Ramos, premiado no Festival de Cinema de Recife. No filme ela questiona a imagem do Nordeste filmado em Cabaceiras retratando o nordeste dentro de uma imagem folclórica: seca, fome, chão rachado.

Na verdade, Cabaceiras apresentava não muito longe, um dos maiores índices de êxodo rural da região, problemas de analfabetismo e um dos piores Índices de Desenvolvimento Humano do Estado. A superação aconteceu depois de estimular a criação de bode e do turismo. Em Cabaceiras o bode é rei O mesmo bicho que dá a carne, leite, queijo, permite a confecção de um belo artesanato em couro produzidos com ações de parceiros. Detentora de ricas e belas reservas arqueológicas, destacando o Lajedo de Pai Mateus, Cabaceiras guarda importante indícios da mais antiga ocupação do homem em terras americanas. Foi aproveitando estas riquezas que Cabaceiras desenvolveu um plano para alavancar o turismo na região, aproveitando até as adversidades, a vegetação típica de caatinga e a falta de chuva.Roliúde é mais uma inteligente estratégia contra a fome.

rosa.jp@terra.com.br

Publicado no dia: 2007-05-11 Rosa Aguiar Rosa Aguiar é colunista do portal desde: 27/05/2004Rosa Aguiar é jornalista formada pela UFPB. Atuou como repórter, produtora e editora nas emissores de televisão locais. Atualmente integra a equipe da Assessoria de Comunicação do Tribunal Regional do Trabalho e apresenta o programa de entrevistas Fórum/Idéias, na TV UFPB.

A Roliúde Nordestina 2


Em 5 de maio, Cabaceiras, cidade no interior da Paraíba com pouco mais de 4 mil habitantes, inaugura uma placa com os dizeres "Roliúde Nordestina", inspirada no famoso letreiro de "Hollywood" nas colinas de Los Angeles (EUA).
Com 80 metros de comprimento por 5 de altura e "uma super-iluminação", segundo o professor e jornalista Wills Leal, a placa será o elemento mais vistoso de um projeto de mesmo nome, que pretende transformar a cidade em um pólo cinematográfico e turístico.Cabaceiras não ganhou o apelido de "Roliúde Nordestina" à toa. Ali, segundo Leal, idealizador do projeto, já foram realizados 18 filmes brasileiros - o primeiro deles em 1924; o último, "O romance de Tristão e Isolda", de Guel Arraes, em fevereiro passado. A lista de filmes que utiliza Cabaceiras como cenário inclui os recentes "Cinema, Aspirinas e Urubus", "Auto da Compadecida", "São Jerônimo", "Viva São João" e "Canta Maria", entre outros.Como Hollywood, a cidade paraibana atraiu equipes de produção por seu tempo seco, sem chuvas para atrapalhar as filmagens. Mas também por fornecer uma imagem "típica" do Nordeste: paisagem árida, casario antigo, rostos marcados pelo sol."A escolha do local - e aí é onde está o ponto forte do projeto - é porque lá você tem um luz, um espaço, um 'tempo espiritual' único no Brasil. O depoimento de dezenas de produtores e cineastas atestam esse fato. É o local onde menos chove no Brasil", diz Leal. Segundo ele, a associação do projeto com Hollywood "serviu apenas como elemento de marketing, pois o cinema que vem sendo feito ali e o que defendemos é exatamente o oposto".Orçado em cerca de R$ 400 mil, o projeto "Roliúde Nordestina" será executado pela prefeitura de Cabaceiras, com coordenação de Leal e apoio do Ministério da Cultura, do Banco do Nordeste e da empresa de energia Saelpa. A sede do projeto será o antigo Cine Ideal, cinema mudo já extinto, em um prédio do século 19. Ali funcionará um memorial das produções cinematográficas realizadas em Cabaceiras, que irá reunir, preservar e expor materiais sobre os filmes que usaram a cidade como cenário.Lado B A inauguração do projeto no dia 5 será uma festa com a presença de diretores e atores que passaram por ali nas filmagens. Mas o clima de celebração não contagia a todos na Paraíba. Diretora do curta "Cabaceiras" e chefe da Divisão do Audiovisual da Fundação de Cultura da Cidade de João Pessoa, a cineasta Ana Bárbara Ramos aponta para o risco de o projeto reforçar a imagem folclórica e estereotipada do Nordeste passada pela maioria dos trabalhos rodados na cidade."Eles estão interessados em transformar a cidade em destino turístico e nada mais. Não há até o presente momento nenhuma ação da prefeitura no sentido de oferecer a seus habitantes uma posição crítica em relação ao cinema como arte e indústria", afirma.Segundo o crítico pernambucano Kleber Mendonça Filho, que realizou reportagem sobre o curta de Ramos para o "Jornal do Commercio"(http://cf.uol.com.br/cinemascopio/matef.cfm?CodMateriaV4)"Cabaceiras" questiona, "com clara inquietação e senso crítico, uma certa identidadecultural confirmada repetidamente em relação à imagem do Nordeste e, por tabela, da idéia de ser nordestino".Para Ramos, Cabaceiras transformou-se na locação perfeita para se falar de um Nordeste rachado pelo sol. "A maioria dos filmes realizados ali retrata um lugar que parou no tempo, nas grandes secas que assolaram a região, na idéia do êxodo nordestino, de que sair da região é a melhor solução", afirma. Ela aponta "São Jerônimo", de Julio Bressane, e "Viva São João", de Andrucha Waddington como exceções.No curta, Ramos entrevista moradores de Cabaceiras que têm uma visão crítica sobre as filmagens na cidade. Um deles diz que "a indústria do cinema retrata a indústria da seca para benefício próprio". Outra lembra que Cabaceiras tem um rio sempre cheio, com margens verdes, mas que as câmeras das equipes nunca apontaram para esse cenário.Mas principal crítica de Ramos vai mesmo para a televisão. No começo de seu curta, é mostrada uma reportagem do "Jornal da Band" em que se afirma que "o bonde é a grande estrela de Cabaceiras". Para a cineasta, apesar das limitações dos filmes feitos na cidade, "a televisão é incomensuravelmente mais vulgar, rasa, preconceituosa, tendenciosa, mentirosa, dissimulada e xenófoba do que o cinema".

Extraído do Bog do Ricardo CalilBLOG notícias&artigos Por:Ricardo Calil em:Sáb 07 de Apr, 2007

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